Ácidos Diante dos Fatos
 

FOTOGRAMAS DO DIA A DIA

 

Telefone, água e luz cortados. A cesta básica ganhada de esmola de alguma bolsa-miséria está no fim. As roupas estão surradas. As crianças, duas, estão com as barriguinhas inchadinhas. Vermes. A mulher está depressiva, Josete, anda cansada, acorda cansada, não limpa mais a casa. E eu gordo, triste, sem dinheiro, um trabalho infeliz, estressante, rotineiro, hemorrágico. Josete não dorme mais comigo, depois que nasceu a Claudia, ela não tem mais tesão. Disse que o médico tirou o prazer da vida dela. Simplesmente ela não entende que somente foi uma cirurgia para ligar as suas trompas. Todos os dias ela fala que o médico tirou o prazer da vida dela. Sentar e gozar no pau do marido.

Pobre mulher não entende a vida como ela é. E eu fico por aqui, dormindo na cama de solteiro. As crianças são a alegria desse pequeno casebre. Dois cômodos que vivem quatro pessoas. Eu, Josete, Claudia e Marta. Essas pessoas comem todos os dias e bebem também. E eu trabalho somente em um emprego, meu trabalho é tirar fotos das pessoas que vão fazer a 1ª, 2ª, 3ª sei lá que via do RG aqui no Centrão. Eu arrendei uma máquina de um conhecido do meu irmão. Pago pra ele 700 paus  por mês, mais o aluguel, conta de luz, água, gás e a mistura. Tiro mais ou menos 1.500 paus, 700 eu tou pra o dono da máquina, 300 pro aluguel, sobra 500 paus, mais a bolsa-esmola que minha mulher ganha, vivemos com 550 paus mensais. Ah; também ganho uma cesta básica do traficante aqui da região, eles falam que é a Igreja que dá, mais eu sei que são eles; os trafica da quebrada.

Porque eu sei? Por que eu sou foda, já vivi com os caras eu sei tudinho como o sistema funciona. É moro na quebrada aqui do Jaraguá, extremo oeste, norte da capital, na verdade ninguém sabe que porra que é aqui. Mas sei lá é mais bonito falar que moro na zona oeste, próximo ao Pico do Jaraguá. Fazer o que, é a vida. O Pico é bonito pra cacete, pena que não tenho grana pra levar as minhas barrigudinhas lá em cima, deve ser lindo ver toda essa loucura que é São Paulo, mas também será que dá para ver todas as favelas da quebrada?

É complicado morar por aqui é muito morro, minha mulher vive reclamando que está com dor nas pernas, parece que é problema de varizes, está toda inchada e roxa as pernas dela. Mas o que eu vou fazer, não tenho grana nem pra comprar um pãozinho, o seu Souza da vendinha já está embaçando na minha, preciso pagar aquele velho português do caralho, pô o cara sabe que eu tou na situação e não vê. Mas não é da conta dele. Vou pagar logo mais, só deixa eu levantar a bala.

Como a Josete me enche o saco. Me cobra todo santo dia. Caramba você não vai melhorar de vida logo não, seus filhos estão crescendo e você aí na mesma. Qualquer dia eu vou perder a paciência e sair pelo mundo. Vai nessa que eu vou deixar você sozinho, por aí solteiro. Pra te fuder vou deixar as minhas filhas com o pai delas, você não foi bom,  pra literalmente me fuder e mandar me castrar, igual a um bicho. Tá bom, agora quero ver onde você vai ficar enfiando esse pinto mole. Cara você acabou comigo. É, a Josete é incompreensível e não entende que foi para o bem dela.  Agora fica regulamento aquele bucetinha gostosinha, só quero ver o que eu vou fazer, estou ficando de saco cheio de bater punheta, nem dinheiro pra ir na zona eu tenho. Porra a Josete não precisava jogar desse jeito.

Todo dia eu acordo as quatro e meia da manhã pra ir pro trampo. Sempre pego o primeiro trenzão vou no último vagão mesmo. Os manos são aliados, já passamos várias fitas juntos, mas eu hoje em dia tou de boa. Sei lá porque eu vou no último, deve ser o inconsciente que me manda para lá, tem dia que chego loucão no trampo, mas só de tabela. Ah, sei lá até sei porque eu vou lá, pôh, minha vida tá maior dificuldade, só reclamação, a Josete não me entende, caralho paguei maior grana pros médicos fazerem a ligação de trompa, e não ter mais nenhum pivete, será que ela não vê que a gente não tem condições de bancar mais ninguém, será que ela queria mais uma criança, será que ela queria um menino para me dar de presente. Você acha que eu ia avisa-la, sem chance ela não iria entender nada e ainda por cima era capaz de denunciar os médicos. Sei lá posso até perder aquela mulher, mas daqui pra frente tenho certeza que não vamos passar nenhum perreio por causa da gravidez. Ela tinha vontade de comer tudo, a mina ficou maior baleia, não sabia o que eu fazia pra mina parar de comer, comia um panetone com um pote de sorvete por noite. Cara pra pagar o cara da padaria foi embaçado, mais de 300 paus por mês de doces, sorvetes, chocolates. Foi foda, falei comigo mesmo, sem chance não dá pra bancar esse dragãozinho. Então foi rapidinho pra fechar com os médicos, dei uma idéia de louco na enfermeira que ela fazia o pré-natal no posto de saúde aqui do bairro.

Vixe a mina caiu na primeira idéia. A operação custa 3 mil reais e aí você topa? Chorei pra caracas e acabou saindo por um pau e oitocentos. Literalmente virei dos avessos pra pagar, cobri férias de um segurança que trabalha no prédio vizinho aqui do trampo. Pintei umas casas na favela vizinha de casa. Cara, não moro na favela, mas num cortiço que não é muito diferente, a diferença é que eu tenho que pagar água, luz e gás. Logo mais vou morar na favela de peito aberto. Foi assim só assim mesmo pra levantar um verba.




Escrito por Will e Sara às 16h12
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CONTINUAÇÃO

 

A Josete tá foda ultimamente. As crianças estão por aí, de manhã a Van vem pegá-las e leva-las para a escolinha da prefeitura e ficam lá o dia inteiro e aí a minha mulher fica o dia inteiro na cama.

Mas vamos pro corri, hoje é quarta-feira e o bicho vai pegar no trampo, espero atender um monte de nego e ganhar uma grana legal pra poder tomar uma e ir no jogo do Corinthians no domingo. O Timão é foda, só assim pra viver. Água, luz e o telefone a gente vê depois.

Escrito por Will e Sara às 16h12
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TRIBOS, TIPOS E MITOS - PARTE I
 
O HYPE - PSEUDO INTELECTUAL
 
Ele estudou cinema. Fez o curso em dez anos na USP. Nesse tempo também
cursou Letras. Aprendeu tudo sobre a cultura e a língua Russa.
Não tem emprego. Seus pais são japoneses e donos de um supermercado.
Ele nunca quis conhecer. Diz que não nasceu para os negócios.

Todo final de semana ele idealiza um roteiro de filme, cria uma banda
e diz que pensa em fazer uma exposição de quadros, por isso vai
começar a pintar na segunda feira.
Seus planos não dão certos por causa da ressaca de álcool e cocaína.
Namorou dois anos uma menina linda e lésbica que ficou com a vocalista
da sua nova banda EXPERIMENTAL.

Ele perdeu um grande amigo porque tentou beija-lo em uma festa. Tomou
um soco e foi parar no hospital. Aproveitou para fazer uma cirurgia no
nariz. Não contou para ninguém. O cara era o guitarrista da sua banda
alternativa com influência de Velvet Underground com Punk da fase 77 a
Julho de 78, que é a melhor fase Punk , o resto ele considera comercial.

Tem todos os instrumentos que uma banda precisa. Diz que foram
comprados em Nova York
Se identificou mais com o vocal, mas segura a guitarra durante o show.
Aliás , ele decidiu que a ideologia da banda seria não tocar nada e
apenas interpretar, e colocar um rádio com som alto
escondido atrás da bateria .

-       Não é play back!!!! – ele grita nervoso na mesa do Charmed, bar
preferido na Rua Augusta.

Explica que faz isso porque sua banda se inspirou em um movimento da
década de 70 no Subúrbio de Londres, conhecido como Flash Spirit Blind
Eyes.

Gosta de se vestir com gotic wear – pinta os olhos e as unhas de preto
e só vestes roupas escuras.
Não assiste filmes que tenham divulgação em outdoors, nem cartazes em locadoras.
Sempre anulou o voto. Esse ano não vai votar, nem se justificar.
Vai dar um tempo fora de São Paulo, ainda não sabe quando, mas depois
que largar o Rivotril.

 
>


Escrito por Will e Sara às 09h10
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DEUSES E TEMPESTADES

A tempestade anuncia a destruição de um povo. Torres, monumentos, pilares, história. As construções são perfeitas e necessárias para a evolução que o homem faz do seu tempo. Deus com a sua presunção glacial e digna de um ser superior faz o trabalho altruísta. Quando o homem chega o mais próximo possível da perfeição um tormento natural há de acontecer e mostrar, exibir na face do ser que ele é uma criatura incompleta, imperfeita, inconsistente e egoísta. A busca pelo objeto perfeito é uma mostra da impertinência desse ser. A objetividade é um algo elementar para uma sociedade viver e passar as suas próximas gerações os seus conhecimentos adquiridos através dos seus antepassados. O nosso Brasil precisa de um tormento digno de tsunami gigante e único para acabar com esta gente cretina e desonesta que vive sobre este solo gentil.



Escrito por Will e Sara às 15h19
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