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DOMINGO NA FAVELA: ALEGRIA E TRISTEZA
As pessoas andam, cantam, conversam e paqueram. O domingo é o dia do descanso, mas isso é exercício para preguiçoso. Ao raiar do dia, os pedestres saem para as ruas com a vontade de nunca mais sair de lá. Outros chegam cambaleando com o efeito do álcool ainda presente no organismo. Sete horas da manhã. Para muitos é hora de descansar, por isso é Domingo. Mais aqui em Heliópolis é diferente, o sétimo dia da semana, foi feito para aproveitar, muitos vão para o futebol, bares, igrejas, lanchonetes e para o cinema. Cinema, isso mesmo, a sétima arte também tem seu transmissor dentro da maior favela de São Paulo. Os habitantes desse Estado Paralelo também encontram a felicidade, pelo menos seus semblantes estão esticados e penetrantes. O sorriso de ponta a ponta funciona como algo cortante e frustrante. Ali no meio de 139.999 pessoas ela não é mais uma. E sim o João Modesto, morador vizinho do Abacate, chefe e comandante dos favelados. Isso mesmo cada um tem sua identidade paralela neste universo paralelo. Não estamos falando de universo cósmico e sim um universo dominado pelo poder dos moradores, mesmo que sejam traficantes, assaltantes, seqüestradores e outros contraventores. Algo interessante e dramático, “Aqui dentro ninguém rouba, pode deixar o carro com a chave no contato na rua a noite inteira! Mas vão roubar? Claro que não, se roubar morre. Como assim? Assim mesmo, aqui dentro não é lugar de roubar, todo mundo é trabalhador, até os manos, eles roubam, porque necessitam de dinheiro, como qualquer outra pessoa, e aqui dentro é assim mesmo, roubou morreu”. É assim que é. Então vamos voltar ao nosso passeio de domingo, em meio a 286 ruas, vielas e guetos, todas com nomes e algumas com sobrenome. Alguns contrastantes como a Rua Alegria, lá se encontra centenas de casas de ambos os lados. Algumas com mais de três andares e outras com o pé direito de apenas 1 metro e meio. E assim que é. Apesar do amontoado de casas, na mesma Alegria encontramos alegria e tristeza; dezenas de biroscas e duas quadrilhas. Isso mesmo um lado é dos traficantes, poderíamos chamar de pré-traficantes ou traficantes mirins, por causa da sua pouca idade e o outro lado é de assaltantes, todos sarados e tatuados. E assim que é. Num pequeno espaço terrestre encontramos a Alegria e tristeza caminhando juntas como irmã e irmão. Heliópolis tem duas características paulistanas, a primeira; a ausência do morro e a segunda; a globalização. Um terreno invadido por volta de 1968, tornou um local único entre as favelas brasileiras. Composta por nordestinos, japoneses, árabes, negros, brancos, amarelos, índios, ruivos tudo o que se imaginar em Heliopolis tem um pouco. No comércio encontramos, bares, supermercados, lanchonetes, até um MC Favela, copiadora, Lan House, estúdio fotográfico, centenas de salões de beleza, bazares e etc. Nos bares encontramos sempre o copo de cerveja e outros destilados transbordando em mesas de cartas e de bilhares. Gritos soam á morte? Não, é mais uma rodada de truco ou uma partida de bilhar que acabou e um favelado se considera um rei e o outro um perdedor. É assim que é. À noite de Domingo chega e os sorrisos não são os mesmos da manhã, somente do torcedor vencedor ou de alguma mulher amada nas vielas e quartinhos. As mulheres buscam alguns que perderam a hora no bar e a dose. Bêbados, felizes e tristes voltam para suas casas e suas mulheres os esperam com a comida na mesa. E a segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado passará e domingo chegará e as histórias se repetiram como as novelas e filmes de amor.
Escrito por Will e Sara às 15h38
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